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29/12/2020 Comunidade científica desconfia de que haja algo errado com a Coronavac





Instituto Butantã posterga mais uma vez a divulgação dos resultados da fase 3 da vacina; temor é que eficácia não possa ser a esperada

A ausência da apresentação de dados de eficácia sobre a vacina Coronavac nesta quarta-feira, dia 23, durante coletiva de imprensa realizada no Instituto Butantan, deixou a comunidade científica preocupada em relação à eficácia do imunizante. O governo de São Paulo já havia adiado a apresentação dos dados, programada inicialmente para o dia 15. Agora, a divulgação foi novamente postergarda. O novo anúncio do resultado dos testes está programado para daqui a duas semanas.


Segundo o Instituto Butantan, os dados não foram apresentados porque haveria divergências com os resultados dos testes clínicos em países como a Turquia e a Indonésia, onde as avaliações também estão sendo conduzidas.

Os cientistas brasileiros que vêm acompanhando a evolução da vacina dizem que poucos voluntários receberam a dose de imunização na Turquia e na Indonésia, o que não justificaria um problema de divergência nos testes. “A maior parte dos testes aconteceu no Brasil mesmo”, diz Fernando Reinach, biológo, Ph.D. em biologia celular e molecular pela Cornell University e autor do livro A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil.


“O novo adiamento dos resultados dos testes de fase 3 da Coronavac levantou a suspeita de que haja algum problema com a eficácia da vacina ou com o ensaio clínico do Butantan”, afirma Reinach.

Existe a desconfiança de que os resultados sejam inconclusivos ou que a vacina tenha baixa eficácia, já que o Instituto Butantan ainda não divulgou os dados sobre o índice de eficiência do imunizante.

Os cientistas também se revelam preocupados pelo fato de que nem mesmo a China registrou a vacina ainda. “Não sabemos muito bem o que se passa na China por se tratar de um país fechado”, afirma Gonzalo Vecina, médico sanitarista e presidente da Anvisa entre 1999 e 2003. “Pode ser que estejam tomando um cuidado especial ou estejam envoltos em questões burocráticas, mas o fato é que sem o registro da vacina na China é impossível haver um registro pela Anvisa no Brasil.”

Vecina também alerta que o resultado dos ensaios clínicos de fase 3 ainda não foram publicados em revistas científicas, o que costuma ser o primeiro passo no processo de comprovação da eficácia de vacinas e medicamentos. Após a publicação, a comunidade científica internacional analisa os dados do estudo e dá seu parecer.

Outro fator potencialmente preocupante é o real índice de eficácia da Coronavac. De acordo com o Butantã, os testes clínicos mostraram um índice de eficácia no limiar de 50%, embora ninguém tenha visto os dados. Outras vacinas, como as da Pfizer e Moderna, apresentam uma eficácia de 95%.

“Uma taxa de 50% significa que apenas metade da população que receber a vacina estará de fato imunizada”, explica Vecina. Caso isso aconteça, um dos problemas que é a população poderá acreditar que está totalmente imunizada e descuidar de medidas essenciais, como usar máscara e manter o distanciamento social, embora ao menos parte das pessoas de fato adquira anticorpos contra o coronavírus.


A comunidade científica também acredita que o calendário de vacinação proposto pelo governo de São Paulo, com início em 25 de janeiro, talvez precise ser revisto. Como a divulgação dos dados sobre os testes 3 da vacina foram postergados para 15 dias, existe probabilidade de não haver tempo hábil para providenciar o registro na Anvisa e começar a imunização em janeiro. Além disso, é preciso que antes a China registre a vacina.

Até agora, as vacinas que já obtiveram registros em órgãos internacionais são as da Pfizer e da Moderna, autorizadas nos Estados Unidos. “Em relação à Coronavac, o processo não caminhou tanto assim”, diz Vecina.

A Coronavac, no entanto, é segura, na medida em que não provocou efeitos que poderiam colocar a saúde em risco. Há pouco mais de um mês, estudos das fases 1 e 2  foram publicados na revista científica britânica The Lancet (e revisados por especialistas), mostrando que a vacina é segura. 


Publicado em: 23/12/2020 às 20h13
Fonte:https://exame.com/

 

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